Há exatas 24 semanas (ou seis meses) atras eu vivi o pior dia da minha vida. E desde então eu vivi cada dia, cada hora desse intervalo de tempo esperando por hoje, por este agora, este momento. Não passou rápido como muita gente diz. O tempo nao voou. Eu senti cada dia, cada hora, passar. Mas finalmente chegou. Neste exato instante eu estou fazendo a minha ultima sessão de quimioterapia!

Eu não sei porque tudo isso aconteceu comigo. Nenhum medico consegue me dar nenhuma resposta do porquê. Talvez eu nunca saiba, mas eu já me conformei com isso. Nem tudo na vida tem uma explicação lógica. Agora, o que eu sei, é o que toda essa experiencia trouxe de bom pra mim. 
Primeiro de tudo, acho que colocou, tanto para mim, quanto para as pessoas próximas a mim, as coisas em perspectiva. Posso detalhar aqui inúmeras vezes que tive crises de ansiedade seríssimas a respeito do meu cabelo rebelde que não ficava no lugar, das gordurinhas localizadas que insistiam em marcar nas roupas, o que hoje parece estúpido já que eu não tenho mais cabelo nenhum, e estou tão inchada da medicação que nem me reconheco mais. Hoje eu aceitaria de bom grado o meu visual de antes. 
Coisas tão sem sentido me irritavam. O amigo mala do facebook que só reclama da vida, quando alguém não enche a bandejinha de gelo no freezer em casa, o carro do vizinho invadindo o espaco da minha vaga. E isso é tao bobo, é tao vazio. E definitivamente irritante. Mas não motivo para acabar com o meu humor, pelo menos não mais.
Quando tudo isso começou, li e ouvi diversas vezes como eu estava prestes a passar por uma experiência transformadora. E eu ate fiz piada disso, dizendo que eu ficava em casa esperando a fada da transformação chegar, e ela nunca chegava. Mas a questão é que nao é bem assim, eu nao sei bem como, nem quando, mas hoje eu vejo que de fato alguma coisa mudou em mim. Não foi de uma hora pra outra, foi gradativo. 
A quimioterapia tira muito de você, ela tira tudo. No meu caso primeiro foram-se os cabelos, o que eu achei que seria a parte mais dolorosa, e que surpreendentemente não foi. Depois com o tempo foi a minha forma, o meu corpo, que foi inchando mais e mais. Depois vieram algumas coisas pontuais: um gosto estranho na boca que arruinou meu paladar para doces por um tempo, um dente do siso insistentemente inflamado que não me permitia comer o que eu tinha vontade. Dai depois comecou a tirar o meu sono, este tão precioso, tão maravilhoso, que passou a me faltar a noite me deixando cansada por dias. Dai foi a minha sobrancelha. Depois meus cílios. Depois disso veio a dormência na ponta dos dedos, me dificultando realizar tarefas simples como colocar brincos ou abrir sacolas de supermercado. E finalmente a gripe persistente, que durou semanas e que tirou o que me foi mais custoso dentre todo este período de tempo: a minha liberdade. No fim do tratamento, eu já nao tive a mesma resistência que no começo, de fazer o que bem entendia e nada acontecer. Qualquer saidinha mais intensa já causava aumento na tosse e em todos os outros sintomas da “gripe”. E portanto durante as ultimas semanas eu fiquei em casa, sem sair. Alem disso, neste meio tempo, a quimio tirou de mim por muitas vezes a minha paciência, ela tirou de mim a minha alegria, a minha vivacidade. 
A quimioterapia realmente tira tudo de você. Ela tira tudo. Bom, quase tudo. Sabe o que ela nunca tirou de mim? A minha vontade de viver. A minha vontade de lutar contra a doença. Ela não tirou de mim a minha família maravilhosa que esteve do meu lado todos os dias destes seis meses. A minha mãe que agüentou cada desaforo nos momentos de angustia, que ficou em casa comigo quando eu pedi, que abdicou de tanto por mim. Não tirou os meus amigos e amigas que se mostraram verdadeiras rochas ao meu lado e a quem eu devo tudo. Não tirou as minhas melhores amigas e companheiras diárias que nunca me trataram como doente e ouviram as minhas ladainhas dia apos dia sem (quase!) nunca reclamar. E é ai que a gente vê o que realmente importa na vida. Superficialidades vão embora. O corpo bonito, sarado, vai embora. A dieta, passa. O que sobra, o que dura mesmo, é a companhia e as gargalhadas durante o jantar. O que sobra é a fome, a vontade de viver mais. O que importa é quem esta ao seu lado na sala de espera. E é por isso que a minha conclusão dessa viagem toda que é o processo quimioterapico é a seguinte: é muito, muito ruim, mas nao é tao difícil assim, porque o que é importante e o que é verdadeiro, fica. E a minha mudança foi essa, eu vejo as coisas em perspectiva agora, eu sei o que realmente importa. A bandejinha sem gelo vai continuar me irritando, mas agora eu ja sei qual é o tamanho que esta irritação pode ter na minha vida. O transito vai continuar me estressando, mas eu já sei que não vou explodir de raiva por causa dele. Não sei por quanto tempo isso vai durar, mas sei que posso sempre me lembrar disso, deste momento agora, deste sentimento agora, e saber que vai ficar tudo bem. Eu não quero esquecer os ultimos seis meses, não quero apagar nada do que passou. Essa experiência faz parte de mim e sou muito grata a ela. Por ter sido parte crucial no processo de cura, é claro, mas também por tudo que me ensinou. Eu ainda não sei porque tudo isto está acontecendo comigo, mas a diferenca agora, seis meses mais tarde, é que não vou ficar batendo a minha cabeca na parede e gritando “não é justo”. Eu vou simplesmente continuar aceitando que a vida é o que é,  e continuar vivendo. 
 
“Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença.”
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