Esse é um tópico que eu estou meio que devendo aqui. Acho que de imediato, é a coisa mais temida, é a duvida número um que surge na cabeca de todo mundo, ou pelo menos na minha. Antes mesmo do “será que eu vou viver?”, ou do “eu vou passar muito mal?”, vem o “O que vai acontecer com o meu cabelo?”. Não é por futilidade. É só que é a cara da doença. A associação numero um que é feita. Quimioterapia=careca. O que nem sempre é verdade. Tudo o que eu leio começa com “cada caso é um caso” e nesta ocasião nao vou fazer diferente. Cada pessoa é diferente, só posso falar de mim. 
Depois da primeira vez que eu ouvi que teria que fazer quimio, foi uma das primeiras coisas que pensei. Mas logo de cara nao perguntei nada. Como se fosse palavrão, como se falar do cabelo fosse imediatamente contagia-lo e fazê-lo cair ali mesmo. Algum outro medico logo nestes primeiros dias caóticos finalmente deu a sentença e eu fiquei sem reação. O cabelo vai cair. Mas tipo, como assim? O MEU cabelo? Cair? Ele que sempre foi tão fiel a mim. Não é fácil de digerir. A chance era de 99% segundo o medico, e eu, que não sou a pessoa mais sortuda do mundo, aceitei. Enfim, eu sabia o que ia acontecer
(Pra quem não me conhece, não me vê a muito tempo, ou simplesmente nunca reparou, acho que eu preciso explicar. Eu tenho muito cabelo. Muito, tipo inexplicavelmente muito. Não conheço ninguém com mais cabelo que eu. Sempre foi motivo até de comentário. So pra constar.)
 
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Esse é o meu cabelo “original”, antes de tudo.
 
Fiz a minha primeiro quimioterapia dia 10 de janeiro. O medico deu 15 dias pro meu cabelo começar a cair. Minha irmã estava de casamento marcado para o dia 26 de janeiro. Matemática dura essa. Todos os dias eu acordava e passava a mão nos cabelos, esperando, temendo, mas nada acontecia. As pessoas nao paravam de dizer “ah, mas eu tenho uma amiga, mas eu tenho uma conhecida, ah mas a minha tia…” E o fim era sempre o mesmo “o cabelo não caiu menina!” Cara como isso é ruim. Pessoas, amo vocês, e agradeço as boas intenções, mas tudo o que eu não precisava naquele momento eram falsas esperanças. E todos os dias, religiosamente. Analisava o travesseiro, passava a mão no cabelo. Ta caindo? Não. Uma semana se passou e era só o que eu conseguia pensar. 
Tomei uma decisão, vou cortar chanel, curtinho. Fui até a minha cabelereira de confiança, expliquei o ocorrido, mostrei uma foto do chanel da Scarlet Johanson, e quando ela em mandou um olhar do tipo “nao vai rolar, so com plástica” eu disse “corta, faz o que você quiser” . E este foi o primeiro passo pro meu novo penteado. Ficou curtinho mesmo, meu pescoço ficou solitário, com as pontas mais compridas na frente. A verdade mesmo é que a minha esperança era que o cabelo ficasse uma merda tão grande que eu ia ter vontade de raspar na hora. Mas nao foi o que aconteceu, ficou super bom… E aí a angustia voltou. E o novo prazo: agüenta até o casamento? 
 
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Esse é o cabelo com o corte radical chanel.
 
Meio desacreditada da situação, meio sem querer pensar, dei uma procurada em perucas pela internet, mas o que não é o preconceito, não? Não conseguia aceitar a idéia de usar uma peruca “seria”. Usaria numa ocasião ou outra mas nao conseguia pensar em aceitar aquele alien na minha cabeca como uma parte de mim. Acho que o nome disso que eu estava sentindo é negação. Não quanto a doença, e sim quanto ao cabelo. Hoje, pouquíssimo tempo depois, penso nisso e vejo como estava sendo boba. Mas ser boba também faz parte do processo eu acho. 
Com um pouco de pé atras fui até um cabelereiro (vou chamar de cabelereiro, porque afinal, eles vendem cabelo) chamado hairlook. Eles me apresentaram o produto deles, uma solução chamada prótese. Acho que é só mesmo um nome mais bonitinho pra não falar peruca, ou de fato existe alguma distinção, não sei. A prótese é um cabelo de fios naturais, com um couro cabeludo de silicone que adere super bem a cabeça e é preso com uma espécie de fita dupla face. Não é barato, mas é bom. Me senti meio convencida ali na hora e resolvi encomendar, bem loira, como sempre quis ser, e um cabelo bem comprido, como o meu era antes do corte radical. A “prótese” seria meu porto seguro caso o cabelo real fosse por água abaixo antes do casório. 
Credo, eu nao queria nem pensar nisso. Minha irmã me ligava animada com o casamento, o nome dela aparecia no meu celular e eu só pensava em sair correndo até a lua porque o meu cabelo ia cair. Que louca…
Enfim, acontece que o inevitável chegou. 13 dias depois da primeira quimio, dia 23 de janeiro, acordei, fiz minha inspeção do travesseiro, passei. Passei a mão no cabelo e ops. Tufo de cabelo na mão. Minha mão gentil e cuidadosa retirou uma quantidade relativamente grande de fios. E por algumas horas eu escondi isso de todo mundo, fiz a unha, fiz massagem, almocei, e nao falei nada. Tava escondendo até de mim. Como se caso eu pronunciasse em voz alta fosse fazer ser mais real ainda. Até que em um respiro de coragem eu disse “maaae, meu cabelo ta caindo”. E as mãos dela, nao tão gentis e cuidadosas, me deram a visão da verdade. Ela tirou um tufo enorme de cabelo. Não tinha o que falar, tinha chegado a hora. Neste dia me arrumei, fui pra balada, dancei horrores e fiz a festa de despedida do cabelo. Na manha seguinte, acordei, fui até o lugar da prótese para raspar. 
Cheguei lá desacreditada do que ia acontecer. A mocinha me indicou uma sala fechada e veio com a maquina. Minha mãe estava na salinha comigo, só que quando eu vi que ia começar a chorar mandei ela embora, respirei fundo e me obriguei a parar de ser tonta, me obriguei a ser forte. Enquanto eu me despedia do meu amado cabelo, e engolia o choro, perguntei pra mocinha se ela fazia muito aquilo, e ela disse que sim. Umas 5 vezes por dia. Perai! 5 mulheres por dia, todos os dias, passam por isso e sobrevivem. Se elas conseguem eu também consigo. E aí o sentimento todo de tristeza foi embora, e eu só senti alivio. Eu estava livre das inspeções matinais de travesseiro, estava livre do fantasma que tinha sido o cabelo nos 14 dias anteriores. O meu cabelo foi pra lata do lixo e eu finalmente me senti livre pra voltar a viver a minha vida sem medo. 
 
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Essa é a prótese (ou peruca!) loiríssima.
 
Charlize Theron, atriz que recentemente raspou o cabelo para um filme, disse a um repórter no tapete vermelho do Oscar “É a coisa mais libertadora, e eu altamente recomendo. Acho que todas as mulheres deveriam fazê-lo”. E ela estava certa. Raspar a cabeça é uma experiência única. Uma mulher que enfrenta isso é capaz de tudo. Não só o cabelo, mas todo este processo. Agora eu sei que eu sou capaz de qualquer coisa. Porque ficar careca é difícil DEMAIS, e ao mesmo tempo, nem é tão difícil assim…da pra entender? Acho que não né… Agora eu ando por ai, sempre com o meu cabelo comprado novo, que agora já dei uma escurecida (tava loiro demais!!!), e vivo uma vida normal. É chato? É. Mas da pra sobreviver. Saber que não estou sozinha ajuda muito. 
Durante esta época eu li muitos relatos sobre a perda de cabelos porque achei que ia ser bom pra mim, e foi. E eu quero muito poder ajudar alguém, pelo menos uma pessoa, da mesma maneira que fui ajudada, então vou procurar escrever um pouco mais sobre isso aqui! História é o que não falta…
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