Eu estava num avião com a minha mãe voltando para casa, quando a comissária de bordo avisou pelo microfone para os passageiros afivelarem os cintos que nós passaríamos por uma area de instabilidade. Minha mãe imediatamente pegou a minha mão, apertou forte e disse “eu detesto aviões”, e nós começamos a falar sobre o assunto. Perguntei a ela do que ela tinha medo, se era medo de morrer, e ela disse que sim. E eu comecei a pensar sobre isso. E eu imediatamente disse a ela, que se ela não tivesse medo de morrer, não teria mais medo de nada. E essa foi uma coisa que eu percebi ali, naquele momento. A maioria dos medos, racionais ou não, tem base em evitar a morte. 

Sinceramente, essa foi uma coisa que eu pensei muito pouco desde que fui diagnosticada. Logo no começo, passou muitas vezes pela minha cabeça que eu poderia sim morrer, mas depois a ideia meio que acabou sendo “metabolizada”por mim. Quando a vida te aponta uma espada no peito, a beira de um precipício, você não pula. Você luta, de mãos vazias mesmo. E é ai que você se vê sem medo, sem hesitar. 
 
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Não ter medo de morrer não é a mesma coisa de querer morrer. Eu tenho certeza que eu não quero! Absoluta. Aliás, quero viver, e muito, mas não tenho mais medo do que possa acontecer. Ou pelo menos as vezes eu não tenho.
 
Conforme falei, logo que recebi o diagnóstico pensei sim nisso, afinal hoje a gente vive em uma realidade em que, infelizmente, a palavra câncer está intimamente ligada ao fim da vida, o que definitivamente não é verdade, mas enquanto eu encarava, tão jovem, a minha própria mortalidade, entre muitos sentimentos, um dos que eu senti foi alivio. Vou explicar.
Eu sempre fui uma pessoa que fiz tudo o que tive vontade, nunca me censurei, tenho muitas, muitas histórias pra contar, eu vi e vivi lugares, pessoas, experiências, o mundo. Já quebrei muito a cara, fui incompreendida, julgada e até as vezes rotulada de irresponsável por este meu jeito. Mas ao mesmo tempo, já ouvi coisas muito boas. Ao me despedir de um grande amigo que se mudava de país em uma certa ocasião, tive o prazer de ouvir “Foi um imenso prazer te conhecer, acho que nunca conheci uma pessoa assim. Você é única”, e essa foi uma das coisas mais gentis e gratificantes que eu já ouvi.  
Dificilmente aceitei desaforo, não passei vontade. Sempre falei que minha tolerância para a infelicidade é baixíssima. Será que sou mimada? Talvez, mas por mim mesma. Só que se eu não for me mimar, se eu não for lutar pela minha própria felicidade, quem vai? E é por isso que naquele misto louco de sentimentos eu senti alivio. Alivio por ter vivido. Por não ter perdido tempo. Por ter sido inconsequente de vez em quando. A vida não espera, não adianta fazer muitos planos. A gente tem que se agarrar as possibilidades porque todos os dias são como um presente. Já quebrei muito a cara também, mas quem me conhece bem sabe que eu sempre digo “é melhor sentir qualquer coisa do que não sentir nada”, e eu realmente acredito nisso. Sentir, para mim, seja o que for, significa que ainda estamos vivos.
Uma amiga me disse a alguns dias atrás uma coisa que me marcou: “eu tenho muito orgulho da minha história, de tudo o que eu vivi até hoje”. Quão incrível é poder dizer isso? Felizmente, depois de pensar, eu digo que eu também. Tenho muito orgulho de tudo o que eu vivi, porque os erros me ensinaram, eu sei que não me segurei por medo, me entreguei, amei, fui sem olhar pra trás, sempre. 
Talvez seja por isso que estou na minha terceira faculdade (incompletas!) e ainda insatisfeita. Eu estou sempre insatisfeita, mas eu já percebi que isso é bom! Isso me faz querer mais, procurar mais, lutar por mim. E ter tido uma vida inacreditavelmente maravilhosa até agora. O que me dá o já citado sentimento de alivio, entre outras coisas. E não me deixa ter medo de morrer, que resulta em forca pra lutar. É um efeito cascata, pelo menos pra mim. A vida que eu tive até hoje, as pessoas que conheci, e as experiências que eu vivi me prepararam pra isso que eu estou passando. Se eu ainda fosse a menina que se formou no colegial, aquela que tinha um calendário mental da vida (noivar aos 24 anos, casar aos 26, filhos com 28) não sei como iria ser. Mas agora, sete anos e muitas histórias depois eu me vejo pronta. Ou em processo de estar.
Você que esta lendo: Não tenha medo da morte, somente faça de tudo para que quando ela vier, e isso esta absolutamente fora do nosso controle, você tenha orgulho da vida que viveu. E que venham os próximos 90 anos de vida intensa!
Acho que a minha mensagem final é uma frase que vi em um filme. “Algumas vezes tudo o que você precisa são de 20 segundos de coragem insana – apenas literalmente vinte segundos de bravura desconfortável – e eu te prometo, alguma coisa fantástica irá acontecer para você.” 
E vai mesmo.
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