No começo desta semana, eu me reencontrei com uma amiga de colégio antiga, a qual eu não via há pelo menos uns seis ou sete anos, para jantar, nos atualizarmos das novidades e nos reencontrarmos. Marcamos um jantar, e nesta ocasião ela levou junto a irmã dela, que também era próxima da nossa turminha da escola, mais ou menos na época do ginásio. 

Enquanto colocávamos o papo em dia, as três solteiras contaram sobre a vida, planos pro futuro, e como não podia deixar de ser, casos amorosos que obviamente não foram para frente, ou estavam em andamento, nestes últimos anos. A irmã da minha amiga contou a seguinte (e mais recente) aventura amorosa pela qual havia passado:
“Tinha saído de alguns relacionamentos curtos e frustrados, e eu realmente estava procurando conhecer uma pessoa legal quando esse cara se aproximou de mim na academia. Ele foi super simpático, se ofereceu pra me ajudar com os pesos, revezou aparelhos e depois de alguns dias me chamou para tomar um suco depois do treino. Eu fui. Mas meio com o pé atras por causa de todas as desilusões pelas quais eu tinha passado, não deixei a coisa passar daquilo, um suco pós treino, que acabou virando uma rotina nossa. Dois meses depois, mais ou menos, fomos nos aproximando, e convencida de que ele era um cara realmente legal, concordei em sair para jantar. Foi paixão ao primeiro encontro. Durante os cinco meses seguintes não passamos um dia sequer ser nos vermos. Ele me olhava nos olhos e dizia que nunca tinha sentido nada assim, sentimento esse completamente recíproco. Eu estava no céu, tinha encontrado o meu príncipe encantado. Foi então que um amigo dele, também da academia, agora nosso amigo em comum, resolveu abrir o jogo comigo. O meu príncipe encantado estava noivo de uma namorada com quem já se relacionava haviam cinco anos, que por sinal estava gravida de três meses. Meu mundo caiu. Nunca vivi uma historia de amor assim e descobrir que era tudo mentira foi simplesmente doloroso demais.”
Ouvindo essa historia a um ano atrás, eu seria a primeira a crucificar o cafajeste. Ela disse que tudo o que queria era ligar para ele e falar todas as verdades que ele merecia ouvir. Eu disse a ela, meio sem pensar: 
“Amiga, se você quer fazer isso, se você quer ligar, ligue. Não passe vontade, acho que você tem que fazer o que você quer. Mas de verdade, o que você vai conseguir com isso? Qual seria o seu objetivo? 
Sua historia de amor não foi uma mentira. Enquanto você estava vivendo, foi verdade. Se parecia paixão, então era. Não deixe que o que você sabe hoje, agora, mate o sentimento verdadeiro que de fato você sentiu, isso não seria justo. Eu se fosse você, caso precisasse mesmo telefonar para colocar este ponto final, ligaria e agradeceria por todos os momentos maravilhosos que vocês viveram juntos, por toda a verdade que existiu em tudo aquilo, e esquece a mentira. Afinal, é melhor sentir alguma coisa, do que não sentir nada. Você trocaria todos os momentos de paixão e borboletas no estômago, por não ter vivido nada disso. Não ter tido esta experiência, da maior historia de amor da sua vida? Nem todas as historias tem final felizes, mas pelo menos você viveu. Você se arriscou. Você tem historia para se lembrar.”
Imediatamente quando terminei de falar isso, me espantei com o meu discurso. Eu nunca fui essa pessoa. Nunca gostei de guardar rancor também, mas sempre pensei “posso ate perdoar, mas não esqueço o que aconteceu”, sabe? E nesse momento eu percebi que alguma coisa mudou em mim. 
O câncer, descobri-lo, trata-lo, o processo de aceitação da mortalidade humana, tudo isso me mudou. Fisicamente, sim. Bastante. Mas principalmente o meu jeito de pensar. Seis meses atrás eu estaria ajudando a bolar um plano pra revidar contra o cara, mas hoje não mais. Todo mundo está passando por alguma coisa, todo mundo carrega a sua própria cruz, seja ela mais, ou menos pesada, mas de maneira nenhuma menos difícil. Acho que a gente tem na vida exatamente aquilo que a gente pode aguentar, e também exatamente aquilo que a gente precisa passar pra nos tornarmos a pessoa que temos o potencial para ser. 
Não acho (com algumas obvias exceções, é claro) que as pessoas machuquem umas as outras intencionalmente, e ainda sim isso acontece todos os dias. E ao invés de procurar motivos, ou vinganças, acredito que podemos tentar aprender. Ainda não sei bem como, e não sei bem o porquê também, mas agora eu já penso, ou pelo menos gosto de acreditar, que todo mundo faz o melhor que pode, e temos que ser gratos pelas coisas boas que recebemos, e simplesmente aceitar as coisas ruins como efeito colateral. Efeito colateral este que passa, e faz crescer. E no futuro, só vamos lembrar o que teve de bom.

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