Há exatas 24 semanas (ou seis meses) atras eu vivi o pior dia da minha vida. E desde então eu vivi cada dia, cada hora desse intervalo de tempo esperando por hoje, por este agora, este momento. Não passou rápido como muita gente diz. O tempo nao voou. Eu senti cada dia, cada hora, passar. Mas finalmente chegou. Neste exato instante eu estou fazendo a minha ultima sessão de quimioterapia!

Eu não sei porque tudo isso aconteceu comigo. Nenhum medico consegue me dar nenhuma resposta do porquê. Talvez eu nunca saiba, mas eu já me conformei com isso. Nem tudo na vida tem uma explicação lógica. Agora, o que eu sei, é o que toda essa experiencia trouxe de bom pra mim. 
Primeiro de tudo, acho que colocou, tanto para mim, quanto para as pessoas próximas a mim, as coisas em perspectiva. Posso detalhar aqui inúmeras vezes que tive crises de ansiedade seríssimas a respeito do meu cabelo rebelde que não ficava no lugar, das gordurinhas localizadas que insistiam em marcar nas roupas, o que hoje parece estúpido já que eu não tenho mais cabelo nenhum, e estou tão inchada da medicação que nem me reconheco mais. Hoje eu aceitaria de bom grado o meu visual de antes. 
Coisas tão sem sentido me irritavam. O amigo mala do facebook que só reclama da vida, quando alguém não enche a bandejinha de gelo no freezer em casa, o carro do vizinho invadindo o espaco da minha vaga. E isso é tao bobo, é tao vazio. E definitivamente irritante. Mas não motivo para acabar com o meu humor, pelo menos não mais.
Quando tudo isso começou, li e ouvi diversas vezes como eu estava prestes a passar por uma experiência transformadora. E eu ate fiz piada disso, dizendo que eu ficava em casa esperando a fada da transformação chegar, e ela nunca chegava. Mas a questão é que nao é bem assim, eu nao sei bem como, nem quando, mas hoje eu vejo que de fato alguma coisa mudou em mim. Não foi de uma hora pra outra, foi gradativo. 
A quimioterapia tira muito de você, ela tira tudo. No meu caso primeiro foram-se os cabelos, o que eu achei que seria a parte mais dolorosa, e que surpreendentemente não foi. Depois com o tempo foi a minha forma, o meu corpo, que foi inchando mais e mais. Depois vieram algumas coisas pontuais: um gosto estranho na boca que arruinou meu paladar para doces por um tempo, um dente do siso insistentemente inflamado que não me permitia comer o que eu tinha vontade. Dai depois comecou a tirar o meu sono, este tão precioso, tão maravilhoso, que passou a me faltar a noite me deixando cansada por dias. Dai foi a minha sobrancelha. Depois meus cílios. Depois disso veio a dormência na ponta dos dedos, me dificultando realizar tarefas simples como colocar brincos ou abrir sacolas de supermercado. E finalmente a gripe persistente, que durou semanas e que tirou o que me foi mais custoso dentre todo este período de tempo: a minha liberdade. No fim do tratamento, eu já nao tive a mesma resistência que no começo, de fazer o que bem entendia e nada acontecer. Qualquer saidinha mais intensa já causava aumento na tosse e em todos os outros sintomas da “gripe”. E portanto durante as ultimas semanas eu fiquei em casa, sem sair. Alem disso, neste meio tempo, a quimio tirou de mim por muitas vezes a minha paciência, ela tirou de mim a minha alegria, a minha vivacidade. 
A quimioterapia realmente tira tudo de você. Ela tira tudo. Bom, quase tudo. Sabe o que ela nunca tirou de mim? A minha vontade de viver. A minha vontade de lutar contra a doença. Ela não tirou de mim a minha família maravilhosa que esteve do meu lado todos os dias destes seis meses. A minha mãe que agüentou cada desaforo nos momentos de angustia, que ficou em casa comigo quando eu pedi, que abdicou de tanto por mim. Não tirou os meus amigos e amigas que se mostraram verdadeiras rochas ao meu lado e a quem eu devo tudo. Não tirou as minhas melhores amigas e companheiras diárias que nunca me trataram como doente e ouviram as minhas ladainhas dia apos dia sem (quase!) nunca reclamar. E é ai que a gente vê o que realmente importa na vida. Superficialidades vão embora. O corpo bonito, sarado, vai embora. A dieta, passa. O que sobra, o que dura mesmo, é a companhia e as gargalhadas durante o jantar. O que sobra é a fome, a vontade de viver mais. O que importa é quem esta ao seu lado na sala de espera. E é por isso que a minha conclusão dessa viagem toda que é o processo quimioterapico é a seguinte: é muito, muito ruim, mas nao é tao difícil assim, porque o que é importante e o que é verdadeiro, fica. E a minha mudança foi essa, eu vejo as coisas em perspectiva agora, eu sei o que realmente importa. A bandejinha sem gelo vai continuar me irritando, mas agora eu ja sei qual é o tamanho que esta irritação pode ter na minha vida. O transito vai continuar me estressando, mas eu já sei que não vou explodir de raiva por causa dele. Não sei por quanto tempo isso vai durar, mas sei que posso sempre me lembrar disso, deste momento agora, deste sentimento agora, e saber que vai ficar tudo bem. Eu não quero esquecer os ultimos seis meses, não quero apagar nada do que passou. Essa experiência faz parte de mim e sou muito grata a ela. Por ter sido parte crucial no processo de cura, é claro, mas também por tudo que me ensinou. Eu ainda não sei porque tudo isto está acontecendo comigo, mas a diferenca agora, seis meses mais tarde, é que não vou ficar batendo a minha cabeca na parede e gritando “não é justo”. Eu vou simplesmente continuar aceitando que a vida é o que é,  e continuar vivendo. 
 
“Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença.”

Bom, eu dei uma sumida, e acho que no mínimo devo uma explicação.

Estou na reta final do tratamento quimioterapico, faltam mais três semanas e estarei livre desta etapa da minha vida, se tudo der certo, para sempre! E o que esta eta final trouxe para mim? Muita ansiedade. O que me trouxe bastante dificuldade para escrever.
Sabe quando você vai a um medico pela primeira vez, ou em uma entrevista de emprego, senta na sala de espera e não sabe muito bem o que esperar? E você fica ali, sentada, pensando, tentando antecipar o que esta por vir, meio sem fazer nada mas ao mesmo tempo com a cabeça a mil por hora. Sabe? Então, é assim que tem sido o meu ultimo mês. Esperando a cirurgia chegar, esperando o alivio que a ultima sessão de quimioterapia vai trazer. A verdade é que eu estou cansada, tudo o que eu quero é voltar a ser uma pessoa com uma vida comum. 
E é ai que eu começo a pensar no que configura uma “vida comum”. A gente tá sempre esperando alguma coisa, tá sempre nessa sala de espera aguardando o novo, o desconhecido. No meu caso hoje é uma cirurgia, mas poderia ser uma formatura, uma promoção no trabalho, uma mudança. E será que a vida vai mesmo mudar quando finalmente a nossa vez na sala de espera chegar? Pensando muito nisso, nesse ultimo mês, eu cheguei a conclusão que eu acho que não. Não importa muito pelo que nós estamos esperando, nem quando vamos conseguir. Acho que a vida se faz nessa sala, a vida na verdade É uma grande sala de espera, e o que realmente importa é o que fazemos nela. Com quem estamos nela. O objetivo é importante, claro, mas a caminhada para alcança-lo é muito mais. 
A cirurgia não vai mudar a minha vida. Não vou entrar no hospital em um dia de um jeito, e sair de outro, transformada. Foi o processo pelo qual passei nestes últimos meses que me mudou, que vai me curar. 
Isso diminui um pouco a minha ansiedade. Não a elimina, ainda sou humana! Mas diminui. Porque eu sei que a minha sala de espera tá cheia de gente incrível pra me fazer companhia! 
Vem, vem 15 de julho que eu estou pronta!

 

Esse é um tópico que eu estou meio que devendo aqui. Acho que de imediato, é a coisa mais temida, é a duvida número um que surge na cabeca de todo mundo, ou pelo menos na minha. Antes mesmo do “será que eu vou viver?”, ou do “eu vou passar muito mal?”, vem o “O que vai acontecer com o meu cabelo?”. Não é por futilidade. É só que é a cara da doença. A associação numero um que é feita. Quimioterapia=careca. O que nem sempre é verdade. Tudo o que eu leio começa com “cada caso é um caso” e nesta ocasião nao vou fazer diferente. Cada pessoa é diferente, só posso falar de mim. 
Depois da primeira vez que eu ouvi que teria que fazer quimio, foi uma das primeiras coisas que pensei. Mas logo de cara nao perguntei nada. Como se fosse palavrão, como se falar do cabelo fosse imediatamente contagia-lo e fazê-lo cair ali mesmo. Algum outro medico logo nestes primeiros dias caóticos finalmente deu a sentença e eu fiquei sem reação. O cabelo vai cair. Mas tipo, como assim? O MEU cabelo? Cair? Ele que sempre foi tão fiel a mim. Não é fácil de digerir. A chance era de 99% segundo o medico, e eu, que não sou a pessoa mais sortuda do mundo, aceitei. Enfim, eu sabia o que ia acontecer
(Pra quem não me conhece, não me vê a muito tempo, ou simplesmente nunca reparou, acho que eu preciso explicar. Eu tenho muito cabelo. Muito, tipo inexplicavelmente muito. Não conheço ninguém com mais cabelo que eu. Sempre foi motivo até de comentário. So pra constar.)
 
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Esse é o meu cabelo “original”, antes de tudo.
 
Fiz a minha primeiro quimioterapia dia 10 de janeiro. O medico deu 15 dias pro meu cabelo começar a cair. Minha irmã estava de casamento marcado para o dia 26 de janeiro. Matemática dura essa. Todos os dias eu acordava e passava a mão nos cabelos, esperando, temendo, mas nada acontecia. As pessoas nao paravam de dizer “ah, mas eu tenho uma amiga, mas eu tenho uma conhecida, ah mas a minha tia…” E o fim era sempre o mesmo “o cabelo não caiu menina!” Cara como isso é ruim. Pessoas, amo vocês, e agradeço as boas intenções, mas tudo o que eu não precisava naquele momento eram falsas esperanças. E todos os dias, religiosamente. Analisava o travesseiro, passava a mão no cabelo. Ta caindo? Não. Uma semana se passou e era só o que eu conseguia pensar. 
Tomei uma decisão, vou cortar chanel, curtinho. Fui até a minha cabelereira de confiança, expliquei o ocorrido, mostrei uma foto do chanel da Scarlet Johanson, e quando ela em mandou um olhar do tipo “nao vai rolar, so com plástica” eu disse “corta, faz o que você quiser” . E este foi o primeiro passo pro meu novo penteado. Ficou curtinho mesmo, meu pescoço ficou solitário, com as pontas mais compridas na frente. A verdade mesmo é que a minha esperança era que o cabelo ficasse uma merda tão grande que eu ia ter vontade de raspar na hora. Mas nao foi o que aconteceu, ficou super bom… E aí a angustia voltou. E o novo prazo: agüenta até o casamento? 
 
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Esse é o cabelo com o corte radical chanel.
 
Meio desacreditada da situação, meio sem querer pensar, dei uma procurada em perucas pela internet, mas o que não é o preconceito, não? Não conseguia aceitar a idéia de usar uma peruca “seria”. Usaria numa ocasião ou outra mas nao conseguia pensar em aceitar aquele alien na minha cabeca como uma parte de mim. Acho que o nome disso que eu estava sentindo é negação. Não quanto a doença, e sim quanto ao cabelo. Hoje, pouquíssimo tempo depois, penso nisso e vejo como estava sendo boba. Mas ser boba também faz parte do processo eu acho. 
Com um pouco de pé atras fui até um cabelereiro (vou chamar de cabelereiro, porque afinal, eles vendem cabelo) chamado hairlook. Eles me apresentaram o produto deles, uma solução chamada prótese. Acho que é só mesmo um nome mais bonitinho pra não falar peruca, ou de fato existe alguma distinção, não sei. A prótese é um cabelo de fios naturais, com um couro cabeludo de silicone que adere super bem a cabeça e é preso com uma espécie de fita dupla face. Não é barato, mas é bom. Me senti meio convencida ali na hora e resolvi encomendar, bem loira, como sempre quis ser, e um cabelo bem comprido, como o meu era antes do corte radical. A “prótese” seria meu porto seguro caso o cabelo real fosse por água abaixo antes do casório. 
Credo, eu nao queria nem pensar nisso. Minha irmã me ligava animada com o casamento, o nome dela aparecia no meu celular e eu só pensava em sair correndo até a lua porque o meu cabelo ia cair. Que louca…
Enfim, acontece que o inevitável chegou. 13 dias depois da primeira quimio, dia 23 de janeiro, acordei, fiz minha inspeção do travesseiro, passei. Passei a mão no cabelo e ops. Tufo de cabelo na mão. Minha mão gentil e cuidadosa retirou uma quantidade relativamente grande de fios. E por algumas horas eu escondi isso de todo mundo, fiz a unha, fiz massagem, almocei, e nao falei nada. Tava escondendo até de mim. Como se caso eu pronunciasse em voz alta fosse fazer ser mais real ainda. Até que em um respiro de coragem eu disse “maaae, meu cabelo ta caindo”. E as mãos dela, nao tão gentis e cuidadosas, me deram a visão da verdade. Ela tirou um tufo enorme de cabelo. Não tinha o que falar, tinha chegado a hora. Neste dia me arrumei, fui pra balada, dancei horrores e fiz a festa de despedida do cabelo. Na manha seguinte, acordei, fui até o lugar da prótese para raspar. 
Cheguei lá desacreditada do que ia acontecer. A mocinha me indicou uma sala fechada e veio com a maquina. Minha mãe estava na salinha comigo, só que quando eu vi que ia começar a chorar mandei ela embora, respirei fundo e me obriguei a parar de ser tonta, me obriguei a ser forte. Enquanto eu me despedia do meu amado cabelo, e engolia o choro, perguntei pra mocinha se ela fazia muito aquilo, e ela disse que sim. Umas 5 vezes por dia. Perai! 5 mulheres por dia, todos os dias, passam por isso e sobrevivem. Se elas conseguem eu também consigo. E aí o sentimento todo de tristeza foi embora, e eu só senti alivio. Eu estava livre das inspeções matinais de travesseiro, estava livre do fantasma que tinha sido o cabelo nos 14 dias anteriores. O meu cabelo foi pra lata do lixo e eu finalmente me senti livre pra voltar a viver a minha vida sem medo. 
 
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Essa é a prótese (ou peruca!) loiríssima.
 
Charlize Theron, atriz que recentemente raspou o cabelo para um filme, disse a um repórter no tapete vermelho do Oscar “É a coisa mais libertadora, e eu altamente recomendo. Acho que todas as mulheres deveriam fazê-lo”. E ela estava certa. Raspar a cabeça é uma experiência única. Uma mulher que enfrenta isso é capaz de tudo. Não só o cabelo, mas todo este processo. Agora eu sei que eu sou capaz de qualquer coisa. Porque ficar careca é difícil DEMAIS, e ao mesmo tempo, nem é tão difícil assim…da pra entender? Acho que não né… Agora eu ando por ai, sempre com o meu cabelo comprado novo, que agora já dei uma escurecida (tava loiro demais!!!), e vivo uma vida normal. É chato? É. Mas da pra sobreviver. Saber que não estou sozinha ajuda muito. 
Durante esta época eu li muitos relatos sobre a perda de cabelos porque achei que ia ser bom pra mim, e foi. E eu quero muito poder ajudar alguém, pelo menos uma pessoa, da mesma maneira que fui ajudada, então vou procurar escrever um pouco mais sobre isso aqui! História é o que não falta…

Eu estava num avião com a minha mãe voltando para casa, quando a comissária de bordo avisou pelo microfone para os passageiros afivelarem os cintos que nós passaríamos por uma area de instabilidade. Minha mãe imediatamente pegou a minha mão, apertou forte e disse “eu detesto aviões”, e nós começamos a falar sobre o assunto. Perguntei a ela do que ela tinha medo, se era medo de morrer, e ela disse que sim. E eu comecei a pensar sobre isso. E eu imediatamente disse a ela, que se ela não tivesse medo de morrer, não teria mais medo de nada. E essa foi uma coisa que eu percebi ali, naquele momento. A maioria dos medos, racionais ou não, tem base em evitar a morte. 

Sinceramente, essa foi uma coisa que eu pensei muito pouco desde que fui diagnosticada. Logo no começo, passou muitas vezes pela minha cabeça que eu poderia sim morrer, mas depois a ideia meio que acabou sendo “metabolizada”por mim. Quando a vida te aponta uma espada no peito, a beira de um precipício, você não pula. Você luta, de mãos vazias mesmo. E é ai que você se vê sem medo, sem hesitar. 
 
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Não ter medo de morrer não é a mesma coisa de querer morrer. Eu tenho certeza que eu não quero! Absoluta. Aliás, quero viver, e muito, mas não tenho mais medo do que possa acontecer. Ou pelo menos as vezes eu não tenho.
 
Conforme falei, logo que recebi o diagnóstico pensei sim nisso, afinal hoje a gente vive em uma realidade em que, infelizmente, a palavra câncer está intimamente ligada ao fim da vida, o que definitivamente não é verdade, mas enquanto eu encarava, tão jovem, a minha própria mortalidade, entre muitos sentimentos, um dos que eu senti foi alivio. Vou explicar.
Eu sempre fui uma pessoa que fiz tudo o que tive vontade, nunca me censurei, tenho muitas, muitas histórias pra contar, eu vi e vivi lugares, pessoas, experiências, o mundo. Já quebrei muito a cara, fui incompreendida, julgada e até as vezes rotulada de irresponsável por este meu jeito. Mas ao mesmo tempo, já ouvi coisas muito boas. Ao me despedir de um grande amigo que se mudava de país em uma certa ocasião, tive o prazer de ouvir “Foi um imenso prazer te conhecer, acho que nunca conheci uma pessoa assim. Você é única”, e essa foi uma das coisas mais gentis e gratificantes que eu já ouvi.  
Dificilmente aceitei desaforo, não passei vontade. Sempre falei que minha tolerância para a infelicidade é baixíssima. Será que sou mimada? Talvez, mas por mim mesma. Só que se eu não for me mimar, se eu não for lutar pela minha própria felicidade, quem vai? E é por isso que naquele misto louco de sentimentos eu senti alivio. Alivio por ter vivido. Por não ter perdido tempo. Por ter sido inconsequente de vez em quando. A vida não espera, não adianta fazer muitos planos. A gente tem que se agarrar as possibilidades porque todos os dias são como um presente. Já quebrei muito a cara também, mas quem me conhece bem sabe que eu sempre digo “é melhor sentir qualquer coisa do que não sentir nada”, e eu realmente acredito nisso. Sentir, para mim, seja o que for, significa que ainda estamos vivos.
Uma amiga me disse a alguns dias atrás uma coisa que me marcou: “eu tenho muito orgulho da minha história, de tudo o que eu vivi até hoje”. Quão incrível é poder dizer isso? Felizmente, depois de pensar, eu digo que eu também. Tenho muito orgulho de tudo o que eu vivi, porque os erros me ensinaram, eu sei que não me segurei por medo, me entreguei, amei, fui sem olhar pra trás, sempre. 
Talvez seja por isso que estou na minha terceira faculdade (incompletas!) e ainda insatisfeita. Eu estou sempre insatisfeita, mas eu já percebi que isso é bom! Isso me faz querer mais, procurar mais, lutar por mim. E ter tido uma vida inacreditavelmente maravilhosa até agora. O que me dá o já citado sentimento de alivio, entre outras coisas. E não me deixa ter medo de morrer, que resulta em forca pra lutar. É um efeito cascata, pelo menos pra mim. A vida que eu tive até hoje, as pessoas que conheci, e as experiências que eu vivi me prepararam pra isso que eu estou passando. Se eu ainda fosse a menina que se formou no colegial, aquela que tinha um calendário mental da vida (noivar aos 24 anos, casar aos 26, filhos com 28) não sei como iria ser. Mas agora, sete anos e muitas histórias depois eu me vejo pronta. Ou em processo de estar.
Você que esta lendo: Não tenha medo da morte, somente faça de tudo para que quando ela vier, e isso esta absolutamente fora do nosso controle, você tenha orgulho da vida que viveu. E que venham os próximos 90 anos de vida intensa!
Acho que a minha mensagem final é uma frase que vi em um filme. “Algumas vezes tudo o que você precisa são de 20 segundos de coragem insana – apenas literalmente vinte segundos de bravura desconfortável – e eu te prometo, alguma coisa fantástica irá acontecer para você.” 
E vai mesmo.

Praga de mãe pega. Ja ouviram isso? E é verdade. A vida inteira tive um semi medinho de dentista. Evitava sempre, sei lá porque. Talvez seja o barulho do motorzinho, a vulnerabilidade de deitar na cadeira com a boca aberta, não sei. O fato é que quando comecei a amadurecer e a época fatídica da remoção do dente do siso foi se aproximando foi como um pesadelo pra mim. E eu, uma empurradora de problemas com a barriga profissional, fiz o que eu faço de melhor. Fugi do compromisso. A ideia de alguém arrancar o meu dente, as historias que já tinha ouvido de martelos e britadeiras tentando extrair um pedacinho de osso do meu corpo, o pânico silencioso daquela cadeira  e daquele consultório foram suficientes para que eu trocasse de dentista umas dez vezes nos últimos anos. E a minha mãe sempre falava “vai ver esse dente menina!”. 

Ha mais ou menos dois meses atras o infeliz começou a doer. Doer muito. Não conseguia nem manter uma conversa civilizada de tão grande o mau humor estava por causa da dor. Fui ao dentista e foi constatada a inflamação no siso. Diante da minha situação de tratamento quimioterapico, não foi recomendada a extração. Tomei antibiótico, antiinflamatório e a vida voltou ao normal. Ate esqueci isso. No final de semana passado sinto a pontada de novo. Afe, que saco esse negocio!! Eu sempre pensei em dor de dente como sendo uma coisa de avo, ou de interior, ou de pessoas que não tinham acesso a dentistas… Enfim, como uma coisa muito, muito distante de mim, e lá estava eu, sofrendo deste mal. 
Foi por isso que sumi na semana passada. A dor de dente parece que se aprofunda no osso, e dói o rosto inteiro, credo! Felizmente já estou medicada com mais antibiótico e mais antiinflamatório, e consequentemente sem dor. Agora é só torcer pra esse dente ai aguentar ate depois da minha cirurgia (que deve acontecer em julho), porque ficar tomando remédio direto não da né? 
E eu, sentada na mesa do almoço, me contorcendo para mastigar sem doer, ainda escuto da minha mãe “te falei pra ir olhar esse dente, não me escuta…”. É, praga de mãe pega…

No começo desta semana, eu me reencontrei com uma amiga de colégio antiga, a qual eu não via há pelo menos uns seis ou sete anos, para jantar, nos atualizarmos das novidades e nos reencontrarmos. Marcamos um jantar, e nesta ocasião ela levou junto a irmã dela, que também era próxima da nossa turminha da escola, mais ou menos na época do ginásio. 

Enquanto colocávamos o papo em dia, as três solteiras contaram sobre a vida, planos pro futuro, e como não podia deixar de ser, casos amorosos que obviamente não foram para frente, ou estavam em andamento, nestes últimos anos. A irmã da minha amiga contou a seguinte (e mais recente) aventura amorosa pela qual havia passado:
“Tinha saído de alguns relacionamentos curtos e frustrados, e eu realmente estava procurando conhecer uma pessoa legal quando esse cara se aproximou de mim na academia. Ele foi super simpático, se ofereceu pra me ajudar com os pesos, revezou aparelhos e depois de alguns dias me chamou para tomar um suco depois do treino. Eu fui. Mas meio com o pé atras por causa de todas as desilusões pelas quais eu tinha passado, não deixei a coisa passar daquilo, um suco pós treino, que acabou virando uma rotina nossa. Dois meses depois, mais ou menos, fomos nos aproximando, e convencida de que ele era um cara realmente legal, concordei em sair para jantar. Foi paixão ao primeiro encontro. Durante os cinco meses seguintes não passamos um dia sequer ser nos vermos. Ele me olhava nos olhos e dizia que nunca tinha sentido nada assim, sentimento esse completamente recíproco. Eu estava no céu, tinha encontrado o meu príncipe encantado. Foi então que um amigo dele, também da academia, agora nosso amigo em comum, resolveu abrir o jogo comigo. O meu príncipe encantado estava noivo de uma namorada com quem já se relacionava haviam cinco anos, que por sinal estava gravida de três meses. Meu mundo caiu. Nunca vivi uma historia de amor assim e descobrir que era tudo mentira foi simplesmente doloroso demais.”
Ouvindo essa historia a um ano atrás, eu seria a primeira a crucificar o cafajeste. Ela disse que tudo o que queria era ligar para ele e falar todas as verdades que ele merecia ouvir. Eu disse a ela, meio sem pensar: 
“Amiga, se você quer fazer isso, se você quer ligar, ligue. Não passe vontade, acho que você tem que fazer o que você quer. Mas de verdade, o que você vai conseguir com isso? Qual seria o seu objetivo? 
Sua historia de amor não foi uma mentira. Enquanto você estava vivendo, foi verdade. Se parecia paixão, então era. Não deixe que o que você sabe hoje, agora, mate o sentimento verdadeiro que de fato você sentiu, isso não seria justo. Eu se fosse você, caso precisasse mesmo telefonar para colocar este ponto final, ligaria e agradeceria por todos os momentos maravilhosos que vocês viveram juntos, por toda a verdade que existiu em tudo aquilo, e esquece a mentira. Afinal, é melhor sentir alguma coisa, do que não sentir nada. Você trocaria todos os momentos de paixão e borboletas no estômago, por não ter vivido nada disso. Não ter tido esta experiência, da maior historia de amor da sua vida? Nem todas as historias tem final felizes, mas pelo menos você viveu. Você se arriscou. Você tem historia para se lembrar.”
Imediatamente quando terminei de falar isso, me espantei com o meu discurso. Eu nunca fui essa pessoa. Nunca gostei de guardar rancor também, mas sempre pensei “posso ate perdoar, mas não esqueço o que aconteceu”, sabe? E nesse momento eu percebi que alguma coisa mudou em mim. 
O câncer, descobri-lo, trata-lo, o processo de aceitação da mortalidade humana, tudo isso me mudou. Fisicamente, sim. Bastante. Mas principalmente o meu jeito de pensar. Seis meses atrás eu estaria ajudando a bolar um plano pra revidar contra o cara, mas hoje não mais. Todo mundo está passando por alguma coisa, todo mundo carrega a sua própria cruz, seja ela mais, ou menos pesada, mas de maneira nenhuma menos difícil. Acho que a gente tem na vida exatamente aquilo que a gente pode aguentar, e também exatamente aquilo que a gente precisa passar pra nos tornarmos a pessoa que temos o potencial para ser. 
Não acho (com algumas obvias exceções, é claro) que as pessoas machuquem umas as outras intencionalmente, e ainda sim isso acontece todos os dias. E ao invés de procurar motivos, ou vinganças, acredito que podemos tentar aprender. Ainda não sei bem como, e não sei bem o porquê também, mas agora eu já penso, ou pelo menos gosto de acreditar, que todo mundo faz o melhor que pode, e temos que ser gratos pelas coisas boas que recebemos, e simplesmente aceitar as coisas ruins como efeito colateral. Efeito colateral este que passa, e faz crescer. E no futuro, só vamos lembrar o que teve de bom.

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(Foto: Bolos que eu e minha turma de gastronomia fizemos em Nova York, no ano passado)
 
Tem um comercial no radio de uma peca de teatro chamada Mulheres Alteradas que fala mais ou menos assim:
– Mulheres, tem alguma coisa melhor do que ter sucesso?
– (mulheres, em coro): Ser magra!
– Tem alguma coisa melhor do que ser rica?
– (mulheres, em coro): Ser magra!
– Tem alguma coisa melhor que ser magra?
– (mulheres, em coro): Não ter celulite!
E é engraçado porque é verdade. Pra muitas mulheres é verdade.
Quando você esta fazendo quimioterapia, que é uma situação de alta ansiedade, e tomando remédios que causam um “leve”aumento no apetite, a ultima parte do dialogo muda.
– Tem alguma coisa melhor que ser magra?
– (mulheres carecas, em coro): COMER!!!!!!
A verdade é que, por motivos psicológicos ou nao, o “leve” aumento no apetite no meu caso foi pesadíssimo. A minha fome, que nunca foi nada modesta, veio sendo estimulada no ultimo ano por um curso de gastronomia em Nova York, e logo que voltei, o tratamento com a quimio foi a cereja do bolo que me transformou na maior gulosa que eu já conheci. 
Nem a ressaca da quimio me impede de atacar a geladeira. Logo depois das sessões, não tenho vontade de comer alguns alimentos específicos, como coisas doces e sopas, por exemplo. Mas em compensação, tenho uma vontade louca de comer outras coisas, como azeitona, palmito e kibe. Geralmente coisas com bastante sal, ou que eu possa colocar muito limão. Engraçado né?!
Tipo, num desses dias que eu acordo faminta, esquento um kibe congelado (sim, cheguei no ponto que tenho vários kibes congelados individualmente no meu freezer) e como no lanche da tarde, logo depois do almoço. Uma hora depois esquento mais um pro segundo lanche da tarde. E assim vai. Quando minha mãe chega em casa e eu como um sanduíche integral de queijo branco e peito de peru, ganho um parabéns por ser tão light. Mal sabe ela do meu ataque a geladeira durante a tarde. 
O fato é que venho engordando. Não absurdamente, mas constantemente. e o problema é que eu adoro comer, então já digo de cara que não vou fazer regime. Acho que já estou passando por coisas difíceis de mais agora para ter que fazer mais um sacrifício. Então o que venho fazendo no ultimo mês é malhar. Personal trainer e pilates duas vezes por semana, e drenagem linfática pra reduzir o inchaço devido a retenção de líquidos causada pelos remédios três vezes por semana, e o dia D para saber se tudo isso funcionou é quinta feira. Em quatro dias meu encontro está marcado com a maldita da balança. Não preciso nem ter emagrecido, o meu objetivo agora, e mais urgente, é não engordar mais. Ou então já estou sentindo que lá vem bronca do médico. Torçam por mim, e pra que eu possa continuar comendo todas as coisas gostosas que eu tanto adoro!

Quando eu abri o bloco de notas pela primeira vez para escrever o que se tornou o inicio deste blog, a intenção era mandar um e-mail para família e amigos e simplesmente contar o que estava acontecendo comigo. As pessoas foram perguntando, queriam saber como eu estava, e eu achei mais fácil criar uma pagina aonde eu pudesse atualizar todo mundo sobre o tratamento. O tempo foi passando, eu fui escrevendo mais e mais e o blog foi se formando. Dois meses e alguns textos depois, estou mudando de casa, a convite do Hospital Albert Einstein. Agora os meus posts poderão ser lidos na pagina do facebook do Hospital! Inclusive a continuação deste… É só seguir este link:

 https://www.facebook.com/HospitalAlbertEinstein/app_136658983174076
Mas como não tem com acessar pelo celular, e quem não tem facebook não vai conseguir entrar, também vou continuar colocando os textos aqui! 
 Na semana passada fiz a minha ultima quimio vermelha, que eram as quatro primeiras. Não posso nem começar a dizer o quanto estou feliz de não ter mais que tomar esse maldito remédio! Eu sei que no auge de uma crise de bom humor eu disse que quimioterapia é demais, e eu não quero me contradizer. Realmente é demais. O que ela faz é incrível. Mas com certeza não vou sentir falta nenhuma da ressaca. Continuei não sentindo nada de muito extremo, mas fiquei bem mais cansada do que o de costume durante uns seis dias.
Agora começa uma etapa nova, a partir do dia 4 serão doze sessões semanais com taxol, que é o remédio mais fraco, e segundo o Dr Oren tem bem menos efeitos colaterais, o que é otimo. O lado ruim é que vou ter que levar agulhadas semanais agora, mas fazer o que né? 
Apesar de ainda faltar muita coisa, a sensação de que pelo menos uma etapa já acabou é muito boa. Parece que consegui riscar uma linha de uma lista de tarefas. Agora é só continuar riscando as linhas, um dia de cada vez.
Os efeitos que percebi depois da segunda e da terceira quimioterapia foram um pouco diferentes do que eu senti na primeira. Nao tive mais insônia nem nada (graças a nossa senhora da água de ameixa!). Continuei sem náusea, enjôo e outros sintomas típicos… O que senti foram três coisas muito especificas:
1) Mal estar, normal, acho que todo mundo sentiria
2) Gosto estranho na boca, até aí normal, só que eu senti um gosto doce, o que já nao sei se é tão comum. E aí tudo ficava doce. O que parece bom, mas na verdade nao e muito nao. Tipo, bolo doce? Delicinha! Água no meio da noite doce? Meio estranho. Bife com arroz doce? Urgh blarg ergh yerrgh!!!!
3) Sensação estranha no estômago. Nao é enjôo, nao perdi meu apetite, nao quero vomitar. É so uma sensação esquisita. Sabe quando os gatos, do nada, dão uma engasgada e quando você vê eles cuspiram, ou vomitaram, sei lá, uma mega bola de pelo? Pois é. A minha sensação é que tem uma mega bola de pelo dentro do meu estômago. As vezes ela da um passeio até a garganta, mas nao como se fosse vomitar nao, so da uma passeada. Aí volta de novo pro estômago.
A boa noticia, o spa aí em cima é fichinha perto do que eu podia estar passando, e so dura quatro dias. É pouquíssimo tempo. Eu posso fazer qualquer coisa por quatro dias. E aí passa e eu fico normal. Bom, não sei bem o que é normal. Aí eu fico eu. Saio, como, danço, bebo e vivo uma vida completamente normal.
O psicológico fica afetado as vezes, mas bem conforme os textos que eu escrevo aqui, eu tento ficar positiva. Sei que vai ficar tudo bem, principalmente agora que já tenho provas concretas de que o tratamento esta funcionando, mas as vezes o meu mau humor faz eu me perguntar o porque de eu precisar de tratamento. O porque de isto estar acontecendo comigo. Nunca fiz mal para ninguém, pelo menos não intencionalmente. Então por que? Justo eu… Será que existe carma? Ou então o universo está tentando testar a minha paciência? E é com esse tipo de pensamento que um dia que eu chamo de “azedo” se preenche. Mas eu faço de tudo pra que estes dias sejam raros. Eles não vão me ajudar, mudar a situação, fazer ninguém se sentir melhor. Reclamar faz parte, e é até bem gostoso de vez em quando, mas limito ao máximo.
A minha vida esta meio que entrando numa rotina agora. Até um remoinho atras eu pensava sobre câncer o dia inteiro. Não esquecia em nenhum momento da minha vida o que eu tava passando. Não deixava de fazer nada por causa disso, nem me afetar negativamente, mas era sempre uma presença na minha cabeça. Agora não mais. Parece que eu finalmente digeri a situação. Ainda tem momentos que eu paro e penso: “Como assim eu estou com câncer???” É meio bizarro, não me sinto doente, me sinto normal. Estou normal. Quem convive no dia a dia comigo deve pensar a mesma coisa. Acho que o que eu quero dizer é que a coisa parece muito pior e mais assustadora do que ela realmente é, pelo menos no meu caso, e pelo menos por enquanto.
Quinta feira que vem é a minha quarta quimio, e a ultima vermelha, que é a do remédio mais forte. Estou muito, muito feliz que essa pior parte está prestes a acabar. E mais feliz ainda de ter percebido como tenho pessoas maravilhosas na minha vida. Cada um está presente da maneira que pode e que consegue, e todo mundo contribui pra que eu esteja assim, tão bem. Obrigada a quem lê aqui, obrigada a quem manda energias, reza e pergunta como estou, obrigada a quem me manda mensagens no Facebook e principalmente obrigada a quem agüenta os meus dias “azedos”, e está do meu lado pra comemorar todos os dias.

Juro, é uma das coisas mais legais que já inventaram. Não estou sendo sarcástica, prometo.

Imagina a situação: Você vai lá, recebe uma noticia bombástica (CÂNCER! Uau!) e acredita que é uma sentença de morte, e fica mal, bem mal…afinal, quem quer morrer?
Aí você faz um tratamento mala, com direito a depilação capilar completa, gosto adocicado na boca e mal estar 4 dias por mês. Que cenário é esse? Que coisa horrorosa, né?

Mas aí chega o dia de fazer o ultra-som de controle, e quando a Dra. Aline (medica agendada para o meu exame, e uma fofa!) começa a olhar suas imagens ela diz “Nossa! Diminuiu muito!”, e aí o seu cirurgião diz “Nossa, tem chance de sumir completamente, parabéns!” E tudo o que você pensa é “YAAAAAAY! Tá funcionando!!!!”.
Aí esse dia chega.
E aí, você descobre que quimioterapia é demais. Uma felicidade igual a essa é muito difícil. Vale muito a pena, viver vale muito a pena. Lutar pra viver sempre compensa, até quando parece que não.
Quando a gente nasce, imediatamente só quer mesmo é pensar em chorar, somos tão pequenos, fomos tirados do mundinho que conhecemos, não dá tempo de agradecer. E depois a gente esquece. E fica tão preocupado em sobreviver que se esquece da vida em sí. Esse foi o maior presente já dado, a vida. E existe a chance de finalmente se ter gratidão por ele. E principalmente de se aproveitar (porque o presente é meu, eu faço com ele o que eu quiser!). Poucas pessoas tem essa chance. É uma felicidade que não da pra explicar.
Como é bom fazer um exame, ir ao medico, e receber boas notícias.  Depois do ultra-som, quando eu caminhava sozinha para pegar o carro no valet do hospital, eu tive que me controlar pra não saltitar pelo caminho! Diminuiu muito!  Quando eu sentei no banco esperando o carro chegar, algumas lagrimas, que até agora eu tinha eficientemente evitado, caíram dos meus olhos. Ta funcionando, ta funcionando!!! E ali, meio chorando, meio rindo, meio comendo a empadinha de frango que eu achei que merecia para a ocasião, uma senhora do meu lado me perguntou se estava tudo bem, me ofereceu água. Minha vontade era dar um beijo nela de tanta empolgação! Mas eu só disse que estava tudo bem, tudo ótimo. Então agora, saindo da minha terceira quimio (acho que virou tradição escrever em dia de quimio!) estou assim em casa: tudo bem, tudo ótimo!
Não é a cura. Tem um caminho longo, muito longo, e meio mala até ela. Mas é uma boa noticia. É uma vitoria. É um baby step. E é tudo culpa da quimioterapia, sua linda!